Empresas nordestinas aproveitam movimento de IPOs


IPO da Moura Dubeux em fevereiro de 2020 na B3.

por Adriana Guarda 

28/08/2020 – 14h

O mercado de capitais no Brasil vive, em plena pandemia, uma nova onda de IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações). Com a taxa SELIC no patamar mais baixo da sua história (2%), investidores buscam ativos com maior potencial de ganho e as empresas percebem na abertura de capital uma oportunidade para se capitalizar. O Nordeste tem um grande número de empresas com potencial para estrear na Bolsa, mas a participação ainda é pequena. Dados da B3 apontam que das 390 companhias listadas atualmente, apenas 25 são da região, o equivalente a 6%. A presença nordestina na Bolsa completou 50 anos em 2020, com a entrada da antiga Confecções Guararapes, de Natal, em 1970. A mais recente é a pernambucana Moura Dubeux, que lançou seu IPO em fevereiro deste ano 

O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e consultor de empresas, Ecio Costa, diz que o pequeno número de empresas listadas na Bolsa tem origem cultural, mas comenta a importância da abertura de capital como alternativa de desenvolvimento para o Brasil e o Nordeste. “O número de empresas brasileiras como um todo, não só nordestinas, é tímido na Bolsa porque o País ainda tem uma cultura muito atrasada em relação a abrir o capital. Isso por várias questões, como adotar práticas de divulgação de balanços, de governança, de compliance. Mesmo grandes empresas do Nordeste que teriam perfil para abrir capital, às vezes por terem uma base familiar terminam sendo avessas a isso. Mas é preciso que os empresários entendam as vantagens. Lançar um IPO é uma maneira mais fácil, rápida e barata de captar recursos para realizar expansões e modernizações do negócio, mantendo o controle da empresa. Os novos acionistas vão receber dividendos, se a companhia for bem é uma relação de ganha-ganha”, destaca. 

O Grupo Ser Educacional – um dos maiores conglomerados educacionais do Brasil – é um exemplo nordestino de sucesso na Bolsa.  A empresa decidiu abrir o capital em 2013, em um momento bem diferente do atual, mas conseguiu alcançar o objetivo de se capitalizar para expandir os negócios. O grupo captou R$ 620 milhões na época. De lá pra cá, o número de alunos matriculados passou de 70 mil (antes do IPO) para 180 mil e foram investidos R$ 548 milhões na aquisição da Universidade da Amazônia, da Uninorte e da Universidade de Guarulhos.  

Jânyo Diniz – Presidente do Grupo Ser Educacional

“Nós tínhamos um projeto de investimento grande para a empresa e tínhamos duas alternativas para executar: buscar dinheiro no mercado com juros altos ou abrir o capital. Ainda existe um tabu dos empresários nordestinos porque o Brasil viveu um espiral de juros altos e o investidor colocava dinheiro na renda fixa e não buscava uma alternativa de renda variável. Mas agora com os juros baixos o momento é outro. Sem falar que o dinheiro da renda fixa não produz, vive-se do ganho sobre o que se investe. Muitas das empresas que estão na Bolsa usam o dinheiro para expandir os negócios, criando um ciclo virtuoso de crescimento  empresarial, estímulo à cadeia produtiva e contribuição para o desenvolvimento do Nordeste e do País”, alerta o presidente do Ser Educacional, Jânyo Diniz. No Grupo, o empresário Janguiê Diniz é o acionista majoritário com 57% das ações e o restante está nas mãos dos demais acionistas.  

 CONCORRÊNCIA 

Além das questões de governança e do controle da empresa, outro ponto questionado pelos empresários interessados em entrar na bolsa são os custos. O economista Ecio Costa defende o estímulo à concorrência, a partir da operação de outra Bolsa no País. “Temos somente uma bolsa no Brasil, um País com uma dimensão enorme. Poderia ter mais uma Bolsa para estimular a concorrência e a redução dos custos”, defende. No mercado se fala na criação de uma nova bolsa.  

A Gerente de Relacionamento com Empresas da B3, Rafaela Vesterman Araújo, defende que os custos da Bolsa brasileira estão abaixo dos de outros mercados. “Os custos médios relacionados com o IPO no Brasil variam entre 2,5% a 5,6% em relação ao percentual de recursos captados pela empresa com a oferta pública. Em outros mercados, como nos Estados Unidos, a média fica entre 4% e 11,7%. Esses custos englobam custos diretamente associados com a oferta, considerando comissões dos bancos de investimento (em geral atrelado ao sucesso da oferta), escritórios de advocacia, auditores, taxas da B3 e da CVM, bem como outros custos da oferta”, afirma. 

Diego Villar – CEO da Moura Dubeux

PRÉ-PANDEMIA 

A Moura Dubeux (MD) – maior construtora e incorporadora do Norte e Nordeste – é a mais nova estreante nordestina na B3. Em meados de fevereiro lançou seu IPO, captando R$ 1,25 bilhão, antes de estourar a pandemia do novo coronavírus no País. “Não fomos prejudicados porque lançamos as ações em um momento positivo do mercado e antes da pandemia”, comemora o CEO da empresa Diego Villar.  

O executivo diz que a empresa já vinha se preparando para a abertura de capital, aperfeiçoando a governança e que não foi difícil fazer a transição de uma empresa de base familiar com 37 anos de mercado para uma companhia com oferta pública de ações. Quando a empresa lançou o IPO, o mercado comentou o tamanho da dívida da empresa com bancos, mas o IPO acabou sendo um sucesso. O desafio, agora, é a retomada do setor, que vem sendo afetado desde 2014, primeiro com a desmobilização dos canteiros de obras em Suape, depois com a recessão de 2015 e 2016 e agora com a pandemia.  

“O mercado imobiliário dispõe hoje de crédito e taxas de juros atrativas, mas a recuperação do setor, no pós-pandemia de covid-19, vai depender do tamanho do impacto da crise sobre o emprego. Temos um grande déficit habitacional e um setor com demanda reprimida de duas crises. Mas é preciso ainda, uma retomada da confiança do consumidor porque um bem como imóvel, as pessoas compram se tiverem a garantia de emprego, por exemplo”, observa Villar.  

 

CANDIDATAS PARA NOVOS IPOs 

O momento favorável à abertura de capital fez com que a B3 tenha uma lista de fila para lançar IPO. Do Nordeste, pelo menos duas estão em processo, a Pague Menos, o grupo varejista Mateus e até o final dessa matéria a rede de varejo baiana LeBiscuit também avalia a possibilidade.  

 

Dados para infográficos  

Número de companhias na B3 – 390 

Distribuição por região do País 

Sudeste – 78% 

Sul – 14% 

Nordeste – 6% 

Norte – 1% 

Centro-Oeste – 1% 

 

Algumas empresas nordestinas listadas na Bolsa 

BCO ESTADO DE SERGIPE S.A. – BANESE 

BCO NORDESTE DO BRASIL S.A. 

CIA FERRO LIGAS DA BAHIA – FERBASA 

CIA SEGUROS ALIANCA DA BAHIA 

GUARARAPES CONFECCOES S.A. 

BRASKEM S.A. 

CORREA RIBEIRO S.A. COMERCIO E INDUSTRIA 

PARANAPANEMA S.A. 

TRONOX PIGMENTOS DO BRASIL S/A 

SUZANO S.A. 

CIA ENERGETICA DE PERNAMBUCO – CELPE 

CIA ELETRICIDADE EST. DA BAHIA – COELBA 

CIA ENERGETICA DO CEARA – COELCE 

CIA ENERGETICA DO MARANHAO – CEMAR 

CIA ENERGETICA DO RIO GDE NORTE – COSERN 

CIA PARTICIPACOES ALIANCA DA BAHIA 

M.DIAS BRANCO S.A. IND COM DE ALIMENTOS 

MOURA DUBEUX ENGENHARIA S/A

J. MACEDO S.A.

SER EDUCACIONAL S.A. 

TERMELÉTRICA PERNAMBUCO III S.A. 

HAPVIDA PARTICIPACOES E INVESTIMENTOS SA 

 Fonte: B3 

 

 


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É um portal de informações que conecta as empresas listadas na bolsa aos investidores. O mercado de capitais no Brasil passa por uma grande transformação. Com a taxa de juros estruturalmente baixa e a queda significativa das rentabilidades das aplicações de renda fixa, o mercado de ações se torna o caminho natural desses novos investidores. Entretanto, o mercado exige, por parte do investidor, informação e conhecimento. Assim, o portal “EuAcionista” busca ajudar nessa conexão entre as empresas e seus novos acionistas.